Skip to content

o início de tudo

02/04/2014

“O peixe apanhado por nós, grelhado nas brasas tem outro sabor. Além disso os momentos que passamos ali os dois juntos são preciosos e com o Zé eu estou descobrir os prazeres da pesca. Este verão comeremos algumas vezes peixe pescado por nós! E se calhar pró ano compro uma cana!” Dizia ele, comigo ao colo, numa quente noite de Agosto, por entre o som das corujas e o cheiro dos pinheiros. Clássico: eu não dormia sem uma história contada pelo meu pai. E tinha que ser ele! Só ele sabia as entoações e nuances de cada palavra, de cada frase. Só ele imaginava as estórias mais mirabolantes e fantásticas que me fizeram sonhar na infância e que ainda hoje assomam à memória quando menos espero. Ainda hoje é assim: um óptimo contador de estórias. Consegue captar uma audiência, que fica como que suspensa à espera do próximo acontecimento. E nessa noite ele só estava a introduzir aquela que viria a ser, provavelmente, a história mais importante da minha vida. A introduzir os personagens que há quase 30 anos me acompanham como se de amigos do meu círculo se tratassem. Seria o início, para mim, de uma admiração e amizade, interrompida fisicamente pela vida, mas que se mantém viva na minha memória. A memória de uma pessoa que tanto me amou em tão pouco tempo.

“Hoje estávamos nós calados, esperando pacientemente que o jantar mordesse a isca, quando de repente vimos surgir à tona da água quatro olhinhos curiosos. Ficámos especados a olhar as duas criaturinhas que se aproximavam de nós cautelosamente. Nem eu nem o Zé conseguíamos mexer um músculo como se qualquer movimento ou som nosso quebrasse o encanto e, como que por magia, eles desaparecessem. Não sabíamos quem eram e não tínhamos coragem de perguntar. Os quatro olhinhos curiosos estavam agora tão próximos de nós que conseguíamos ver o movimento das caudas nas águas do sapal. Tratava-se, nem mais nem menos, do que um simpático casal de peixinhos: uma sardinha e um carapau! Aí, nós os dois, mais confiantes com a confiança que eles depositaram em nós ao aproximarem-se, pousámos as canas de pesca e entabulámos conversa. A tarde caiu em amena cavaqueira, e nós voltámos sem jantar, mas com dois amigos preciosos: a Maria Sardinha e o António Carapau! E agora, ala que se faz tarde e amanhã temos um dia de trabalho árduo pela frente nas quentes areias e águas do nosso querido Monte Gordo!” ” Mas pai… Conta mais…” “Amanhã, filha, amanhã.”

Dessa noite por diante, todas as estórias de paizinho eram sobre os dois peixinhos que eles voltaram a encontrar mais vezes nesse verão. Férias findas e no regresso à vida quotidiana, eu insistia em saber mais sobre aquelas fantásticas criaturinhas que o meu pai e o amigo Zé tinham conhecido. O outono passou, o inverno chegou, e eu continuava deliciada com tais personagens, pedindo noite após noite mais. (Acredito que o meu pai, por muito criativo que seja, tenha passado por fanicos para ter tanto que contar… Bem haja paizinho!) Até que numa noite fria de Dezembro eu parei de pedir mais estórias deles. Alívio para o meu pai, que em dia de luto, engolia as lágrimas para eu não perceber de forma cruel o quanto as nossas vidas tinham perdido naquele dia… Dizem que há coincidências mas eu não sei se acredito… Depois da partida física do Zé, eu mudei o rumo das estórias nocturnas e a Maria Sardinha e o António Carapau transformaram-se em lembranças de um verão que celebrou pra sempre a amizade entre as duas famílias.

Os anos foram passando e nas nossas vidas continuavam os três. E continuam. E hoje mais do que nunca eles estão aqui comigo: a Maria Sardinha relatando as minhas felicidades, angústias e desesperos, o António Carapau que me foi revelado no início deste ano (muito diferente do que tinha imaginado um dia) e que vai começar a partilhar aqui também o que lhe vai na alma, e o Zé. Sim o Zé. Definitivamente já ninguém me tira da cabeça que a sua filha caçula mo traz de volta nesta amizade que cresceu rapidamente este ano, como a massa cresce com o fermento em poucas horas. (Muito mais poderia dizer sobre este assunto, mas é muito complexo para aparecer no meio desta apresentação tardia dos dois personagens que deram mote ao blog. Quando os pensamentos sobre isso se tornarem mais claros eu escreverei sobre o que fui descobrindo sobre mim e sobre os que me rodeiam, sobre como a minha vida se tem desenrolado e sobretudo como tudo faz tanto sentido…)

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: